Tenho ouvido, a vida toda, sobre ser amigo de Deus. Ter um rela cionamento com Deus. E isso seria a causa de felicidade e vida eterna. Mas sempre vi dificuldade nisso por não poder ver Deus, apesar de crer na existência e presença dele aqui e agora. Mas como me relacionar com alguém que não vejo nem sinto? Uma relação não sensorial!
Revendo as relações humanas mais comuns, vi o início da vida como a mais sensorial possível. A intimidade do bebê com a mamãe é tanta que um é parasita da outra; inicialmente intra útero mas mantém-se a dependência depois do nascimento na mama de mamãe. Como na maioria das vezes a gravidês é voluntária, o parto é desejado e a intimidade do contato é prazerosa existe uma interdependência, baseada sobretudo no toque, no contato com tato.
O que gerou a maternidade é outra relação, a conjugal. Duas pessoas que, no modelo ocidental, escolheram-se e resolveram conjugar o verbo conviver. Conjugar é carregar o jugo juntos. A palavra pressupõe trabalho [jugo é aparelho pra bois puxarem carroça ou arado]. Mas as pressuposições emocionais dos noivos são outras: prazer, transferências mútuas, convivência produtiva, emoções sem fim. Essas pressuposições foram e são fermentadas na sociedade, pelos amigos, pelos romances absorvidos nas músicas, livros e filmes, e algumas vezes no partilhar da vida em família, quando pai e mãe são emocionalmente bem estruturados ou aprenderam a equacionar o jugo de um modo justo, harmonioso. A última situação não é a regra. O que mais vejo são casais que se acostumaram a viver assim. Assim como? De qualquer modo, de muitos modos, alguns bizarros até. Mas nada que se pareça com os sonhos nupciais iniciais. Nuvens que muitas vezes se dissolveram em chuvas e tempestades logo na lua de mel, ou na crise dos 7 anos, ou nas saída dos filhos de casa, aos 40 e uns. Tantas foram as lutas da vida a dois que o que era alegria virou monotonia. O que era emoçõa virou assintonia. A relação fundamentalmente sensorial dos namorados tornou-se, na maior parte dos dias de um mês comum, uma relação não sensorial. Não que falte amor, mas parece que o sentido do tato perdeu-se. O olfato ficou ressecado. O paladar insípido. E vai-se levando assim. Não que haja correções a se fazer. Pessoas são únicas. Casamentos também: dupla unicidade. Acho que o modelo inicial foi deturpado. As espectativas eram muitas e infundadas considerando-se os participantes do consórcio: imaturos emocional, financeira, biologica e socialmente. A coisa fica feia pra muitos relacionamentos. Muitos acabam. Outros nos mostram o prazer de envelhecer. A conversa depois de anos é melhor, os interesses mais afinados, o carinho mais contido, o amor palpável mais raro, mas frequentemente com qualidade melhor. Pudera, a vida acrescentou tantas coisas que chamamos de maturidade, que não sobra cômodos emocionais pra guardar emoções dessas mais fúteis e transitórias e sem propósito outro que não o prazer momentâneo. Pareço um velho muito experimentado! Só estou começando a aprender. Mas tenho visto tantas coisas... que se não me servem ao menos me cobrem de razão nas considerações.
Mas voltando a Deus e minha relação com Ele. Ser absoluto mas pessoa presente. Incompreendido, mesmo incompreensível. Quase ausente o dia todo. Necessita de concentração pra ser notado.
Não parece casamento velho?
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