Ouvindo a festa... do lado de fora [PK dor]
Quando eu me levantei e voltei para o meu pai, e quando ele me recebeu de braços abertos, sorriu para mim, me abraçou e me beijou, além de me dar o anel dele (agora já posso assinar cheques em nome dele de novo!), e trocar as minhas roupas, aquelas todas sujas, fedendo a porco e com sujeira acumulada por meses sem lavar ou tomar banho, por outras esporte fino e com direito a um belo par de sandálias lindíssimas (as minhas havaianas já haviam se acabado muito antes de eu ter chegado no chiqueiro), ele fez outra coisa. Ele me levou para dentro da casa dele. Casa que eu havia abandonado há anos. Mas ele me fez sentir como se nunca tivesse saído e me garantiu que isso não era só um sentimento, mas que aquela casa era minha de fato. Ele, também, me fez sentir como se nunca tivesse gasto um tostão da herança que me dera, apesar de eu ter torrado tudo nas piores coisas e formas possíveis. Ele chegou a falar que nem se lembrava mais disso. Ele também nem quis me ouvir quando eu disse que não merecia tudo aquilo, que, quando muito eu poderia ser um dos faxineiros daquela casa...ou então um peão da sua fazenda, num cantinho qualquer, mas ele não aceitou nem mesmo ouvir o que eu falava.. ele me deixou sem poder falar quando me sufocou com seus abraços e beijos. Ele disse que eu era o filho dele e por isso ele estava alegre, e mais alegre ainda porque eu, o filho, havia voltado para casa. Ele me fez sentir como se nunca tivesse saído e, ao mesmo tempo, me fez sentir como se estivesse sendo adotado aquele dia. Que coisa interessante. Aí então ele fez uma festa, uma super festa, e o bom da história é que a festa continua.
No meio da dança, da música, dos muitos manjares, bebidas e de inúmeros amigos que se alegram comigo existe um porém. Pessoas que eu amo muito e que eu gostaria de ver rindo, dançando e se alegrando comigo, estão ali do lado de fora e não querem entrar.
Lá do lado de fora eles não estão chateados comigo, pelo menos não mais do que quando saí para torrar o dinheiro do pai. O que me deixa triste é que eles estão bravos com o pai. Contaram-me aqui dentro que eles lá fora deram uma dura nele. Dizem que lá fora falaram cara a cara para ele que ele não era justo e que ele estava fazendo tudo errado. Também falaram, sem rodeios, que ele não sabia distinguir bem as coisas. Mostraram por a mais b que ele não podia ter me tratado dessa forma, era só olhar o que eu tinha aprontado e ainda por cima fazer festa, pegar a melhor carne e fazer um churrasco – exatamente aquela carne que era reservada para as ocasiões mais especiais. Não era justo – as coisas não podem ser assim tão simples e boas para alguém que pecou tanto. Não deveria nem ter recebido essa ‘coisa’ de volta, mas já que o fez, no mínimo teria que ficar numa quarentena, para ver se não tem recaída, porque isso deve acontecer com certeza. Agora esse pai, nos seus arroubos de amor, já vai abraçando, banhando, vestindo, restaurando crédito, e, ainda por cima fazendo uma tremenda de uma festa? É justo isso? Deve ser a idade, não é possível! Ainda afirmaram que, eles, que sempre foram bonzinhos, eles que sempre fizeram tudo certo, eles que sempre fizeram tudo que o pai tinha mandado, que sempre ajudaram na casa e na fazenda e que nunca tinham pecado contra ele, nunca tinham gasto o dinheiro dele a toa, nunca o tinham abandonado, ele nunca fez festa para eles, pior, eles não haviam recebido nem mesmo um ‘puxeiro’ para fazer um espetinho com os amigos. Agora chega esse safado, pecador, fedendo a porco, sem um centavo no bolso porque que era um inconseqüente desmiolado, e volta numa boa, por cima como se nada tivesse acontecido? Ah não, isso não é justo, reclamam eles – do lado de fora! Disseram assim: “Pai, você vai ver que daqui a alguns dias ele pega mais um pouco de dinheiro seu, se aproveita da sua bondade e vaza no mundo outra vez... a gente conhece essa peça”.
Eu estou sabendo disso apenas porque me contaram, pois eles não estão na festa e para mim não falaram nada, até porque decidiram continuar do lado de fora. Acho que tem medo de entrar, de chegar perto, talvez porque não suportariam o tamanho da minha alegria por estar de volta à casa do meu pai. Dizem que a única coisa que as pessoas não conseguem perdoar é a alegria dos outros. Não sei se é isso ou o que é. Só sei de uma coisa, aqui dentro a festa continua e cada vez melhor. A comida é boa, a bebida é farta, a música é maravilhosa, assim como a dança e a companhia. Além do mais a porta está aberta, o convite do pai foi enfático. Ele foi lá fora tentar buscá-los, mas eles não quiseram, não aceitaram entrar, preferiram ficar do lado de fora. Eu sempre achei que todo mundo gostava de festa, mas descobri que, mesmo gostando de festa, tem gente que não vai simplesmente porque não consegue aceitar os motivos dela e assim acaba do lado de fora.. ouvindo de longe o ‘pizeiro’ maravilhoso que está rolando aqui dentro.
Lucas 15:25-32
[PK]
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