PARÁBOLAS DA VIDA REAL : O VINHO E O AMOR
Deitado na minha rede, na garagem de casa, sentindo a brisa leve, que trouxe um pouco de frescor ao final de um dia terrivelmente quente. Um copo de vinho, e só ele, me acompanhava no balanço suave. Vermelho bordô, mas não era um Bordeau. Cabernet Sauvignon. Chileno. Gostoso. Macio. Cheiroso.
O amor anda em crise; não desaparece da mente, mas no coração tá difícil. Relembrava o dia de angústias amorosas várias e desfocadas. Sorrateiramente, sob meu olhar, eles se encontraram. Num interlúdio íntimo e confidencial como convém (só) aos namorados recentes; quase homossexual, porque ambos são masculinos, o amor e o vinho. Semelhanças são convenientes aos que se aproximam num relacionamento novo. As dessemelhanças acabariam com a esperança recém nascida.
A beleza, a cor especial, o cheiro próprio, a personalidade, e por fim o gosto. O desprender o vinho da garrafa é quase um gesto simbólico do desprendimento medroso a princípio dos novos amantes. Mas o tempo e a convivência tornam o ato menos doloroso. A rolha, da segunda vez, não está tão firmemente fixada à garrafa, como o abrir-se novamente já não representa novidade. Não é revelação nova, é continuação do ato anterior. Chegamos até aqui. Até aqui vai ser fácil. Um pouco mais pode ser mais difícil. A libertação do vinho para o copo é simples, mas profunda. O copo límpido fica profanado ou engrandecido pelo novo conteúdo. O amor só acha expressão em quem se arrisca e esforça por desprendê-lo do corpo e endereçá-lo a outro. E no corpo do outro acha abrigo, deixa marcas, transforma. E a nova forma será sempre maior que a anterior acrescida de danos ou desejos ou esperanças ou lembranças.
Libertar o vinho do copo é que traz mais semelhanças com amar. O amor e o vinho se encontraram profundamente. Antes do primeiro e pequeno gole vieram a cor, o cheiro, o brilho, o movimento, o copo frio.Elementos fundamentais, estimulantes de todos os sentidos.
Como no amor se não agrada à primeira vista, ao primeiro cheiro, ao primeiro toque, não valerá o tempo gasto nas segundas e terceiras audições. O gole pequeno, tímido, medroso, ansioso, esperançoso de prazer. Passa rápido pela boca, desce à garganta, e deixa suas marcas.
O ácido, o doce, o aveludado, a maciez, o amargo suave. Alguns minutos se passam saboreando cada sensação que vai lentamente acabando. É imperativo um novo gole. Menos tímido. Mais afoito. Nem por isso despretensioso. Desejado ardentemente pelo prazer causado em tão pequena amostra o segundo gole é maior, mais encorpado. Atrevidamente movido um grande gole é colocado na boca e não engolido. Fica a passear por entre língua e dentes. Enche à plenitude a cavidade. Mas engolir é inevitável e sempre rápido. E minutos depois se foi o gosto de um gole tão grandemente apreciado. Tão deliciosamente sentido e desejado e acalentado no interior definitivo. Mas engolir foi inquestionável. E passou. E sumiu.
Antes da embriagues outros goles virão. Depois da embriagues a ressaca. Cansaço. Prazer puro de se refazer para recomeçar mais adiante. Do amor é desnecessário descrever a semelhança.
O coração geme de ansiedade, timidez e medo. Mas é bom demais prá deixar de experimentar novamente. E quando se dá conta está viciado. E o vício tem componentes psiquiatricamente definidos: tolerância é uma das mais importantes, exigindo doses sempre maiores para se ter o mesmo efeito; dependência: a vida não tem sentido nem graça sem ele.
Desculpe a paródia: vão-se o gosto, o cheiro, a cor, ficam a garrafa e o copo. Vazios. Fica a boca vazia; o estômago vazio; a cabeça sã. O coração desalegre. As coisas estão todas no lugar; só perderam a graça. A rua está lá, sem sentido. O riso existe, sem resposta. O amor se renova. O vinho acaba. Nem sempre um. Nem sempre o outro. Vai-se o amor, ficam os amantes. O vinho a gente compra outro.
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